Tesouro IPCA+: como funciona, rentabilidade, riscos e vale a pena
Entenda o Tesouro IPCA+: rentabilidade IPCA + taxa fixa, custos, tributação, marcação a mercado e quando esse título faz sentido no seu planejamento.
O Tesouro IPCA+ é um título público que remunera pela variação do IPCA mais uma taxa de juros real definida no momento da compra. Na prática, ele é o principal instrumento acessível para proteger o poder de compra do dinheiro em objetivos de longo prazo, como aposentadoria, compra de imóvel ou educação dos filhos. Neste guia, você vai entender como ele funciona, quanto custa, como é tributado, quais são os riscos reais — inclusive a marcação a mercado — e em quais situações ele faz sentido na carteira.
Importante: este conteúdo é educacional e não constitui recomendação de investimento individual.
O que é o Tesouro IPCA+
O Tesouro IPCA+ (também conhecido pela sigla NTN-B Principal) é um título do Tesouro Direto em que a rentabilidade é composta por duas partes:
- IPCA: o índice oficial de inflação do Brasil, que corrige o valor investido para preservar o poder de compra;
- Taxa de juros real fixa: um percentual combinado no momento da compra, que representa o ganho acima da inflação.
Se você comprar um Tesouro IPCA+ pagando IPCA + 6% ao ano, por exemplo, o compromisso do Tesouro Nacional é devolver o valor corrigido pela inflação do período mais 6% ao ano — desde que você mantenha o título até o vencimento.
Isso é diferente do Tesouro Selic, que acompanha a taxa básica de juros, e do Tesouro Prefixado, que trava uma taxa nominal sem proteção inflacionária. Se você ainda está comparando as três opções, o guia de CDB, Tesouro Selic ou poupança e o guia completo de renda fixa ajudam a montar esse quadro.
Como funciona na prática

O funcionamento é simples de descrever, mas tem detalhes que mudam a experiência do investidor:
- Compra: você adquire o título pelo preço do dia, que já embute a taxa real oferecida naquele momento.
- Acumulação: o valor é corrigido diariamente pelo IPCA acumulado mais os juros da taxa contratada.
- Vencimento: no prazo final, você recebe o valor corrigido pela inflação mais os juros reais, sem surpresas.
- Venda antecipada: se precisar do dinheiro antes, o Tesouro Nacional recompra o título pelo preço de mercado do dia — e é aqui que mora o principal risco do produto.
Juros semestrais: IPCA+ e IPCA+ com juros semestrais
Existem duas versões do título:
- Tesouro IPCA+: paga tudo no vencimento (principal + juros acumulados);
- Tesouro IPCA+ com juros semestrais: paga cupons de juros a cada seis meses e o principal no vencimento.
A versão com cupons pode interessar a quem busca renda periódica corrigida pela inflação, mas exige atenção: cada cupom recebido é tributado e precisa ser reinvestido manualmente se o objetivo for acumulação.
Custos: taxa de custódia da B3
Todo título do Tesouro Direto paga taxa de custódia à B3 de 0,20% ao ano, provisionada diariamente sobre o valor de mercado da posição a partir de D+1 da compra. A cobrança acontece na venda antecipada, no vencimento ou nos pagamentos de juros.
Um detalhe que gera confusão: a isenção de taxa de custódia para saldos de até R$ 10.000 por CPF vale somente para o Tesouro Selic. No Tesouro IPCA+, a taxa incide sobre todo o saldo, independentemente do valor. Em prazos longos, 0,20% ao ano é um custo baixo, mas ele existe e deve entrar na comparação com outros produtos de renda fixa.
Tributação: IR regressivo e IOF

O Imposto de Renda segue a tabela regressiva padrão da renda fixa, incidindo sobre o rendimento:
| Prazo do investimento | Alíquota de IR |
|---|---|
| Até 180 dias | 22,5% |
| De 181 a 360 dias | 20% |
| De 361 a 720 dias | 17,5% |
| Acima de 720 dias | 15% |
Resgates em menos de 30 dias também sofrem IOF, cobrado de forma decrescente conforme o número de dias corridos. O IR incide inclusive sobre os cupons semestrais, quando existirem. Para aprofundar, veja o artigo sobre a tabela regressiva de IR na renda fixa e como declarar investimentos no Imposto de Renda 2026.
O risco que muita gente descobre tarde: marcação a mercado
O Tesouro IPCA+ protege contra inflação no vencimento — não em qualquer data. Antes do vencimento, o preço do título oscila diariamente conforme as taxas de juros de mercado (marcação a mercado). Se as taxas sobem depois da sua compra, o preço de mercado do seu título tende a cair.
Isso significa que a venda antecipada pode resultar em retorno diferente do contratado, inclusive negativo. A perda só se materializa se você vender antes do prazo; mantido até o vencimento, você recebe exatamente a rentabilidade combinada (IPCA + taxa fixa).
Do lado da segurança, há um ponto forte: a recompra antecipada é garantida pelo Tesouro Nacional, que sempre compra de volta o título pelo preço de mercado do dia. Ou seja, a liquidez existe — o que não é garantido é o preço dessa liquidez. Como o emissor é o governo federal, o título não depende da cobertura do FGC, que sequer se aplica a títulos públicos.
Exemplo numérico (hipóteses explícitas)
Suponha uma aplicação de R$ 10.000 em um Tesouro IPCA+ com vencimento em 10 anos, contratado a IPCA + 6% ao ano, com inflação média de 4% ao ano no período e resgate no vencimento:
- Correção pela inflação: R$ 10.000 × (1,04)^10 ≈ R$ 14.802
- Juros reais de 6% ao ano sobre esse valor: R$ 14.802 × (1,06)^10 ≈ R$ 26.514
- Rendimento bruto: cerca de R$ 16.514
- IR de 15% sobre o rendimento: cerca de R$ 2.477
- Valor líquido aproximado: R$ 24.037 (antes da taxa de custódia)
Este é um exemplo ilustrativo com hipóteses fixas — inflação real e taxas de mercado variam, e o resultado não é garantido. O objetivo é mostrar a mecânica, não projetar retorno.
Quando o Tesouro IPCA+ faz sentido (e quando não faz)
Faz sentido quando:
- o objetivo é de longo prazo (geralmente 5 anos ou mais), com data definida;
- você quer proteção contra inflação para metas como aposentadoria ou compra de imóvel;
- você tem disciplina para não resgatar antes do vencimento;
- o título pode ser usado como parte da alocação de longo prazo dentro de uma carteira de investimentos diversificada.
Não faz sentido quando:
- o dinheiro é reserva de emergência — nesse caso, liquidez diária sem volatilidade importa mais; veja quanto guardar na reserva de emergência;
- o horizonte é curto e você pode precisar vender no meio do caminho;
- você não tolera ver o saldo oscilar para baixo em alguns períodos.
Erros comuns
- Tratar IPCA+ como "rendimento garantido": a garantia vale para o vencimento, não para vendas antecipadas.
- Usar IPCA+ como reserva de emergência e se frustrar com a marcação a mercado.
- Ignorar a taxa de custódia achando que a isenção de R$ 10.000 vale para todos os títulos — ela vale só para o Tesouro Selic.
- Escolher vencimento sem olhar a data: comprar um título que vence depois da sua meta obriga a vender antecipadamente.
- Comparar taxas nominais de produtos diferentes sem ajustar pela inflação — IPCA + 6% e 12% ao ano nominal não são comparáveis diretamente sem hipótese de inflação.
FAQ
Tesouro IPCA+ garante ganho acima da inflação? Garante a taxa real contratada apenas se mantido até o vencimento. Vendas antecipadas estão sujeitas a marcação a mercado e podem gerar retorno menor, inclusive negativo.
Preciso pagar taxa de custódia no IPCA+? Sim. A taxa da B3 é de 0,20% ao ano, provisionada diariamente. A isenção de até R$ 10.000 vale apenas para o Tesouro Selic.
O Tesouro IPCA+ tem proteção do FGC? Não precisa: o emissor é o Tesouro Nacional, e a recompra antecipada é garantida pelo próprio governo federal pelo preço de mercado do dia.
Posso perder dinheiro no Tesouro IPCA+? Somente se vender antes do vencimento em cenário de alta de juros. Até o vencimento, a rentabilidade contratada é cumprida.
Como declaro no Imposto de Renda? Títulos do Tesouro aparecem na ficha de Bens e Direitos, pelo custo de aquisição, e os rendimentos são informados no grupo de rendimentos sujeitos à tributação exclusiva/definitiva.
Conclusão
O Tesouro IPCA+ é a ferramenta clássica para transformar metas de longo prazo em planos com proteção contra inflação: você contrata hoje um ganho real (IPCA + taxa fixa) e o recebe integralmente se levar o título até o vencimento. O contraponto é a volatilidade no caminho — quem pode ser obrigado a vender antes precisa entender a marcação a mercado antes de investir. Para objetivos longos e datas claras, ele tende a ser peça central; para prazos curtos e dinheiro que pode ser necessário a qualquer momento, alternativas com liquidez diária e menor oscilação costumam ser mais adequadas. Avalie prazo, objetivo e tolerância a oscilações antes de decidir — e, se precisar de um ponto de partida, o guia de como começar a investir organiza os primeiros passos.
Conteúdo educativo. Não constitui recomendação individual de investimento.


